Crônica da Lapa - I'll Die Anyway - Por Lucas Barata

Texto originalmente escrito em 25/05/2013

A noite reserva as mais absurdas figuras. A cada minuto uma especifidade se forma, nascem os homens do impossível. Vivendo na margem da nossa realidade cotidiana, um evento aleatório desse nível torna-se um verdadeiro choque de realidade.
Hoje eu conheci um homem íntegro. Veio perdido na fila, entrou errado e outro o empurrou. Se justificou em inglês. A curiosidade atiçou. Um gringo. Já era pano pra manga. Fiquei observando enquanto avançava na fila com um casal amigo. O cara do casal perguntou (em inglês) "Ei, cara, da onde você é?". "Afeganistão", ele disse. Tava aí uma boa história. Fiquei ouvindo e ele acabou dizendo que tava meio chapado. Eu disse "É, eu também" e sorri. Enfim alguém tão alterado quanto eu naquela situação de "volta para casa".
Subimos os três conversando. Eu, ele e meu amigo. A namorada dele sentou na janela e dormiu. Ora, não nós. Nós estávamos inteiramente aficionados nele, rasgando-nos para saber mais daquele homem. Sentou-se ao nosso lado e começou a falar sobre o nosso país. Falou de nós, criaturas arrogantes que o destratam e evitam, uns até inacreditavelmente cospem. Um ser como eu e você, e tão igual a qualquer pobre nosso.  Tão genuinamente humano, tão ordinariamente indivíduo. Falou mais. Falou o que fazia, tão importante quanto, falou para onde estava indo. Colômbia, pras FARC. Trabalho? Assassino, óbvio. Um atirador de muita integridade, na verdade. E continuava falando. E emanando paz. O homem, o assassino, imerso num deserto bélico foi a pessoa mais pacífica que já conheci. O matador era tranquilo, um senhor de consciência. Não é um bicho que mata, é um homem que trabalha.
Nosso amigo não só estava indo de um lugar pro outro matando pessoas como também era bastante letrado. Shaman, esse é o nome dele, fala dez línguas e carrega AKs 47 desde os doze. Depois de tempos trabalhando para o Talibã, ele decidiu sair de lá. Do Afeganistão para Índia, Sri Lanka, África do Sul, Haiti, Cuba, Suriname, Guiana Francesa. E aí, Brasil. E daqui, Colômbia, para os nosso queridos irmãos latinos o abraçarem.
Eu confesso que não entendo a motivação de vida de Shaman (se é que é assim que se escreve o nome dele), muito me falta para entender o que leva um homem a viver em constante situação de sobrevivência. Bem, culpemos o status quo. Eu sou só um fruto do meu meio (e orgulhoso digo que pelo menos sou um pouco desprendido). Shaman é do dele. Um guerreiro nato, um homem do mundo. Ah, vocês, doces aventureiros que acham que gozam do verdadeiro êxtase da vida, não sabem de nada. Eis um homem que vive a cada segundo sem saber do próximo, a cada hora sem saber da próxima, um iminente quase morto a cada pequeno instante. Meu amigo perguntou à ele se tinha medo de morrer. "Eu posso morrer agora", ele disse. É, eu posso morrer agora.
"Eu sou franco-atirador", comentou. "Também planto minas", acrescentou. Um homem de guerra, eu imagino que o pequeno afegão seja muito fatal em seus métodos, e justamente por isso me espantou sua atitude. Ele foi jogado para trás no ônibus e não disse nada. Só disse que não viu a fila. Nem sequer levantou a voz, um homem de hábitos no mínimo aterrorizadores. "É, o seu povo é muito arrogante. Eles não respeitam qualquer pessoa que pareça mais pobre que eles. Somos todos bêbados, drogados, pobres aos olhos de vocês". E eu nem sequer pude discordar.
Shaman prosseguiu nos contando da sua vida. Morador da favela da Nova Holanda aqui no Rio de Janeiro, veio para cá por um conhecido angolano (ele disse que não tinha amigos) e já estava se virando de cozinheiro para poder ir para Manaus cruzar a floresta. Sua meta é cinco mil reais. Falta pouco, só mais dois mil e ele cai fora do buraco de rato que entrou. Ah, ele também nos criticou por tão poucas pessoas saberem falar ao menos o inglês. Disse que éramos ricos atrasados, uns cópias dos primos norte-americanos. "É o capitalismo", disse. Justifiquei a situação falando sobre os políticos que nos podam as asas, sobre o sistema caótico de jeitinho do nosso povo, sobre a nossa situação de gado. O povo brasileiro trabalha para o outro e sustenta vícios e sonhos nele implantados, somos uma cria da realização da vontade alheia, escravos em plena felicidade. Um sorriso no rosto, um samba no pé, uma coleira no pescoço. Haha, é muito engraçado.
Dois pontos depois, ele desceu. Shaman se foi dentro da noite e eu não guardei contatos. Disse que ia voltar pra casa e descansar. Ele mora de graça e tem um playstation. Ele só tem um playstation. Vi a figura do homem moreno, muito magro e de cabelos escuros e lisos desaparecer pela porta. Tchau, meu amigo. Até nunca mais. A gente pode morrer agora. A gente pode morrer agora. Você se vai para o fim do universo, um dia após o outro morrendo todo dia. Eu aqui, morrendo parado. Nós aqui, morrendo parados. Você vivendo. O único homem que realmente vive é aquele que está disposto a morrer a todo momento. A gente pode morrer agora, ele me disse. O homem mais pacífico vive no inferno. E eu, Jesus Cristo da classe média, nem sequer toco o purgatório.

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