Baratas Na Parede por Lucas Barata




Se esgueirava pela parede que estava atrás do computador. Tinha certeza que ela estava ali, só olhando-o com aquele olhos de quem quer intimidar, tinha certeza que estava pronta para se mostrar achando que o homem sentado, com medo, iria pular para trás e sair do quarto. Ora, não mesmo, dona. Devia estar se movendo em zigue-zague, evitando qualquer contato visual enquanto suas pequenas patas sussurravam na madeira parecendo conversar com as fibras. A qualquer momento. Mais um pouco de espera, devia pensar se era a hora apropriada para saltar em desespero no ar e aterrorizá-lo de uma vez ou aguardar para causar mais aflição. Esperou mais na esperança de o fazer mais angustiado.


Na cadeira ele caía de sono de tanto trabalhar. Eram três e vinte e dois da manhã de uma segunda-feira, um péssimo horário para se estar acordado revisando papéis quaisquer de negócios e a coisa só ficava mais cansativa. Imprimir algo aqui, reescrever qualquer coisa ali, um inferno de ações repetitivas e exaustivas que o cutucavam como o próprio diabo brincado com seu garfo flamejante, e mesmo que o café o proporcionasse um estímulo, o diabo só continuava brincado com seus sentidos e chegando mais perto de seu “fiofó” com aquele tridente. Aquele tridente tão quente que faria aço virar manteiga e pele, diabos, da pele nada sobraria. Começou a olhar em volta do escritório que ocupava e sentia-se agora incrivelmente miserável por estar trabalhando ao invés de dormir o sono dos cansados. Passou a mão nos olhos, piscou lentamente e clicou qualquer coisa no computador para salvar o que tinha feito. O computador travou. Foram apenas cinco segundos porém foi o ele precisava para pular da cadeira tomado pela aflição. Arquivo salvo. Sentou-se na cadeira e voltou a examinar papéis. Ações, contratos, coisas de grandes empresas, as do tipo que nunca parecem que vão falir e aí, em um sexta-feira morna e aconchegante de primavera, elas quebram e é 1929 de novo. Fantástico como esses conglomerados de escravidão faturam tanto e são tão importantes na vida das pequenas formigas – nós – que investem anos nesses mesmos conglomerados de suor e papel. Outra xícara de café e mais papéis para ler. Não acaba nunca, ele pensa desanimado. Um movimento sorrateiro perto das caixas de som. O que será? Mais papéis que irão fazê-lo vender sua alma ao todo poderoso satã em troca de férias de quinze dias? Uma sombra se lança ao ar em meios as luzes apagadas do resto escritório. Como é que se deslocou tão rápido? Caiu no chão. Agora debaixo da mesa do computador. Papéis. Uma pequena sombra preta agora gruda no monitor impossibilitando o cansado homem – que chamaremos de Hector – de ler seus e-mails de trabalho(e seu horóscopo diário). A criatura repugnante que toma o monitor como seu território enfim faz contato visual com Hector.


Uma barata! ele resmungou enquanto a mesma o fitava numa mistura de ódio e medo. Só uma barata, disse a si mesmo enquanto a olhava olhá-lo. Não sabia o que fazer. Não tinha medo de baratas mas também, não queria pegar nela. Não porque era nojento, só não estava com vontade de fazê-lo. Resolveu dar liberdade à seus impulsos esquizofrênicos e disse:

– Oi, qual é a sua? – e arrastou as mãos, entrelaçando os dedos. Ficou esperando uma resposta como um passageiro espera um trem lotado mas nada ocorreu. O inseto se mexeu mais um pouco, deixando um rastro de gosma pela tela. Hector ficou enojado mas continuou olhando-a fixamente. Deu a volta na tela e, a cada movimento, o homem na cadeira ficava mais intrigado. Desceu cuidadosamente pelo monitor até a mesa, roçou as patas e caiu bem na frente dele.

Ele imaginou o inseto dizendo “ah, não se preocupe, só estou aqui pelas migalhas” enquanto o encarava, agora bem na frente dele. Esticou uma mão e a pegou pelas antenas e ela se debatia como se se afogasse. Nada que fez foi o bastante para soltar-se. Continuou com ela na ponta dos dedos e agora caminhando até o banheiro. Ligou a luz, abriu o vaso e fitou a água, contemplando o líquido do sanitário onde pensava em fazer um sacrifício ao grande deus da tubulação de esgoto. A barata esgueirou-se pelas unhas do homem e subiu em sua mão. Tensão, Hector trocava olhares com o bicho que parecia dizer “ E se fosse o contrário? Você acha que eu faria o mesmo com você?”. Ele entrou no jogo.

– Não sei, faria? Olha, está tarde. Eu só quero terminar de ler esses papéis e ir trabalhar...

– E eu só quero comer, humanoide! Não podemos coexistir?

– Olha, você vai para o vaso, é para onde você pertence okay? Esgoto, casa, você, vai.

– Mas e enquanto a liberdade de ir e vir? Quem é você para limitar os meus movimentos?

– Na verdade, a casa minha se você não sabe.

– E o chão é de todos. Um papel não muda isso.

– Ai Jesus – disse enquanto esfregava os olhos cansados. – É o seguinte...

– Humano, somos todos iguais.

Hector soltou a barata na água. Ela se debatia em pânico, estava angustiada e não conseguia nadar ou seja lá o que for que baratas fazem na água. Andou mais um pouco e pôs a mão em cima da descarga. Parou e ficou pensando enquanto o bicho agonizada pela igualdade entre espécies e discursava em silêncio sobre os direitos dos animais. “Che Barata” disse para si mesmo. Pressionou a descarga e...não conseguiu ir até o final. 

Observou o ponto preto na água, pegou alguns pedaços de papel higiênico e o tirou de seu inferno úmido.

– O que diabos você fez?!

– Relaxa, você tá bem agora. Não me amola mais. Vai procurar comida.

– Homem, esse é o problema de vocês: vocês se acham deuses perante ao resto dos animais. Vocês são os mais frágeis e...

– Aham. Agora senta ali que eu vou buscar algo para você.

Hector foi até cozinha e pegou um pacote de biscoitos velhos, tão velhos que a validade havia sido ultrapassada em 6 meses. Não fazia mal, pensou. Encheu a mão com um punhado de biscoitos velhos e voltou ao escritório para oferecer a barata.

– Toma. Tudo seu. Desculpe pelo o que ocorreu, eu só preciso descansar. Merda, eu sou até um fã da WWF! Eu só... – parou um pouco, abatido. – eu tenho de acabar isso.

A barata que, agora não falava mais com quem a ouvia, se intrometeu no meio dos petiscos a ela oferecidos. Não falou mais nada – aliás, ele não ouviu mais nada – enquanto acabava de ler as ultimas anotações que jaziam em sua mesa.

Enfim, quando seu relógio marcava quatro e treze da manhã, ele acabou de examinar o que precisava ser examinado. A barata tinha ido embora e ele estava sozinho. Acendeu um cigarro e ficou fitando as paredes que o cercavam, esperando encontrar a breve companheira que levara junto num quase inseticídio mas não a achava, nem mesmo a gosma que deixava enquanto corria horizontalmente pelo quarto. Hector sentia-se mal pelo o que fez. Por um momento, ele julgou que, em toda sua humanidade, sua patética humanidade, ele era um ser mais digno que a Blattaria, ou qualquer outro animal da ordem Insecta, ou até mesmo do reino Animalia. Apagou o cigarro, desligou o computador. Girou a cadeira e levantou-se para ir dormir no andar debaixo. No caminho para o quarto, viu um vulto na parede e se perguntou se poderia ser ela. Resolveu não olhar e deixar aquele ser em paz. Deitou-se e ao encarar o teto viu dezenas de vultos negros cruzando sua vista. Eram insetos, muitos insetos. Uma ilusão? Não sabia, porém, não reagiu a revoada. Pensou no que a barata havia o dito. “Não podemos coexistir?”. Dormiu.


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