Coluna Kiss: Nan Soares

 Quem melhor para escrever para o coração de uma mulher senão uma?

 Sensível e de uma paixão pela vida transposta em um largo sorriso que transformou a entrevista em um momento mágico. Foi assim o meu encontro com a escritora Nan Soares... Será que dará um conto? Risos. 

 Carioca da gema e de Del Castilho, Nan, além de escritora sempre, trabalhou na doce companhia das letras. Ela é revisora de textos e já exerceu a função em jornais e agências de publicidade, como editora e, também, como ghost writer. Descobriu-se escritora na adolescência, pois sempre gostou de um papel em branco, um pedaço de parede, para desenhar ou escrever. 

Nan entrou no mercado Homocultural com força total, embora não tivesse a pretensão de se tornar escritora. Ela confessa que sua ex-namorada era amiga de uma das donas da editora – Metanoia - e fez a ponte. A editora se interessou e o primeiro livro saiu. “Foi uma experiência bem interessante como escritora, porque me dei conta de que posso escrever sobre qualquer assunto, contar histórias, ainda que não sejam as minhas. Escrever sempre vale a pena”, sorri modestamente. Além do “Mulheres em contos e encontros” ela está prestes a lançar o “Damas”. Segundo ela, o “Damas” foi escrito primeiro, mas era um livro que não contemplava o público homo e precisou ser adaptado a pedido da Metanoia.  


Eu defino o “Mulheres em contos e encontros” como um pote de chocolate... Doce e delicioso. Mas a minha opinião não conta e eu pedi que a autora o descrevesse:

“Falar sobre um trabalho pra mim é fazer uma releitura de vida, de momentos... Enfim, o livro inicia com dois contos e o restante são poesias. O legal de escrever é que fui amadurecendo ao longo desse processo. Coloquei nele dois contos. O primeiro com o título de outro livro meu. O segundo fala de um amor virtual, bem interessante. O que sei dele é que as pessoas que o leram gostaram, e nem todas são homossexuais. Na verdade, quando escrevo assumo o papel de relatora das personagens. É como se eu apenas emprestasse-lhes o dom de ser um mero instrumento da criação, pois têm coisas minhas que ao relê-las me pergunto: fui eu que escrevi? Tem uma poesia referente ao livro Flores raras e banalíssimas, de Carmen Lucia Oliveira, que fala da relação em Elizabeth Bishop e Lota Macedo Soares, assim como a criação do Parque do Flamengo. Outra fala de Baudelaire e Bukowski. Fala de amores idos e de amores vindos.”
 Cada livro sempre tem um pouco da vida do autor, mas Nan defende que o “Mulheres em contos e encontros” não é autobiográfico, embora ela confesse que sua inspiração veio de coisas que ouviu e viveu e das leituras que fez das pessoas ao longo da vida: 

 “Quando escrevo, nem sempre falo de mim ou das minhas experiências, simplesmente escrevo. Mas é claro, também, que tem muito de mim, pois tem minha emoção e total doação ao ato de criar. Minha inspiração vem, às vezes, dos mínimos detalhes, como cheiros, imagens, uma cena, lembranças, vontades.”

 Com relação a sua homossexualidade – tema principal do Amor Livre –, ela teve uma infância de moleque, pois jogava bola, andava de bicicleta e era a única menina no meio de seis primos. Líder nata, ela nunca teve medo de ser ela mesma e não teve crise de identidade ou dúvidas quanto à homossexualidade. Nan nunca fez questão de levantar bandeira, ou precisou impor sua opção sexual, pois sempre foi uma pessoa reservada, brincalhona e respeitava a opinião alheia. Entretanto, ela reconhece o quanto foi difícil assumir para a família. “Dificuldades sempre têm, porque a família não aceita. Acha que você precisa de tratamento psicológico. Quando chegou o momento, simplesmente me revelei para minha mãe e não foi fácil, mas venci esta etapa pelo respeito, pois sempre respeitei minha família. Minhas relações amorosas foram sempre com mulheres e em relação aos amigos ou à família sempre fui eu do meu jeito, simples assim, a ponto de ser convidada para ser madrinha de casamento do meu primo e a noiva dele dizer em alto e bom som para toda família que eu poderia ir de calça jeans, mas que eu fosse e aí eu comprei um conjunto rosa Pink de saia e blazer, meia de seda, scarpin, bolsa e maquiagem e, confesso, era a madrinha mais linda sem o menor problema, pois fiz por amor (colocar saia e maquiagem)”. 

 Com relação à nova produção, o “Damas” é uma história de vida de pessoas comuns, homossexuais e heterossexuais, que têm profissões, conflitos, anseios e desejos. Nan não se limita a escrever somente para o público LGBT. Ela escreve sobre tudo que a inspira como escritora, poeta, letrista. “Posso escrever sobre política, aliás, desde que comecei a escrever, a long, long time ago, não tinha a intenção de publicar para o segmento homossexual”.  

 A escritora comenta também sobre a abertura da homocultura, dizendo que o mercado gay está em franca expansão no mundo, e é uma oportunidade para acabar com tabus e preconceitos. “Esta mudança de paradigma já se faz urgente há um tempo, só que agora a questão eclodiu na forma da legalização das uniões homoafetivas, e a literatura é apenas um arcabouço para o contexto, a meu ver. O mundo clama por mudanças, desde que o mundo é mundo!”.
 Nan poetiza até para transmitir uma mensagem ao público que deseja seguir a carreira de escritor... “Entregar-se à criação como a musa e companheira, pois que é um momento ímpar”.

 E para terminar... Eu já era fã antes da entrevista e ganhei um livro. Desejei escolher um conto para ilustrar o post, mas são tantos os prediletos que deixei a Nan escolher um, especialmente, para você:
“Saí a procurar...

Levantei da cama no meio da madrugada e saí à noite a procurar.

Passei pelo Face, mas não tinha mensagem.

Fui ao Skype, mas só a sombra do seu rosto off-line.

Chequei o e-mail e nada!

Celular nem pensar, só dava caixa postal.

Onde mais poderia procurar?

Queria tanto poder lhe falar, quem sabe lhe ver por um instante que fosse, e cheguei à conclusão de que na era tecnológica o melhor é silenciar e não postar palavras frias que magoam e podem machucar terrivelmente a quem as lê, pelo simples motivo de se estar frustrada, confusa...

Como voltar atrás? Pedir desculpas... Por um ato de insanidade e loucura?

O bom é que estou tomando consciência dos erros...

Peço perdão a Deus por agir assim, rezo por nós, apago a luz e tento dormir.”

E você, vai resistir?


Por Marianna Kiss



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