Coluna Kiss: Cacique de Ramos


        Um dia de sol, uma tamarineira, um índio ao fundo, uma emoção inexplicável, um frio na espinha. Reações e sensações desconhecidas ao se pisar pela primeira vez lá. Muito mais do que o bloco carnavalesco mais famoso do Rio. Muito mais do que o único que desfila na Avenida Rio Branco por três dias seguidos com mais de 10 mil componentes.  



 Muito mais do que roda de samba aos domingos. Muito mais do que o berço de compositores, ritmistas, músicos e cantores consagrados. Muito mais do que o refúgio de sambistas e artistas. Um verdadeiro santuário de arte e cultura. Um verdadeiro caso de amor. E muita história para contar. É assim, como num templo sagrado, que posso começar a relatar nossa primeira visita ao Cacique de Ramos.




Fomos muito bem recebidos. Primeiro pelo diretor Antonio Rosales Munhões. Serralheiro com orgulho estampado no rosto. Começou como mais um dos apaixonados do bloco, há 51 anos. Era um dos índios dessa tribo tão grandiosa do samba. Um dos fundadores da Torcida Jovem do Flamengo (1967). Que fique claro que futebol e samba não se separam, e daí o seu nome sagrado: Onça. Apelido que ganhou por ser muito amigo do Onça, Mário Felipe Pedreira, jogador do Flamengo na época. 

Depois um sorriso encantador e como num piscar de olhos, lá estava Katinha do Cacique, vestida de índia para nos conceder a entrevista. Alguns minutos depois, a rainha Evellyn Andrea, pergunta que roupa deve usar. “Sinta-se a vontade”, foi o que o André, o fotógrafo, respondeu. Seu carisma já a vestia de majestade, não faltava nada. 

Algumas horas de atraso, perdoáveis diante de tamanha curiosidade para conhecer o lendário Bira. E não era qualquer Bira, era o Bira Presidente, Ubirajara Felix do Nascimento, presidente do Cacique de Ramos. Eis que surge um jovem senhor, de vestimentas simples. De um perfume hipnótico e de uma forte simpatia. Sua idade contradiz totalmente com sua aparência e vivacidade, 76 anos que se jura ter no máximo 50. 

Bira fala de amigos do pai, ídolos que o inspiraram: Onório Guarda, Cartola, Donga, Pixinguinha. Fala de quem ganhou o primeiro pandeiro: Gastão Viana. Fala da musa inspiradora: sua mãe Conceição. Fala dos anos a frente do Cacique: 52. Fala do surgimento do bloco em 20 de Janeiro de 1961: o amor das famílias Felix do Nascimento, Oliveira e Espírito Santo, pelo samba. Fala das primeiras rodas: Bar Ferro de Engomar e Bar do Arlindo. Fala do padroeiro: São Sebastião, Oxossi. Fala da escolha do nome desse grande movimento cultural: um pedido espiritual e a homenagem aos índios desse Brasil esquecido. Fala dos cinco guerreiros que colocam o carnaval na rua todos os anos: Onça, os também diretores Ronaldo e Neca, o vice-presidente Waltinho e o amigo Braço. E daí começa a citar a família que constituiu ao longo dos anos: “tio” Zeca, Galdino, Luiz Carlos da Vila, Marina Morena (mulata do quarto centenário pintada por Di Cavalcanti), Dominguinhos do Estácio, Noca da Portela, Almir Guineto, Marquinhos Satã, Arlindo Cruz, Sombrinha, João Nogueira, Bento Jóia e de alguns outros que fizeram “faculdade” por lá: Dudu Nobre, Jorge Aragão, Neguinho da Beija-Flor, Jovelina Pérola Negra, Emílio Santiago... até a jornalista Glória Maria já foi rainha de bateria de lá. Foi do Cacique também que nasceu o grupo Fundo de Quintal, no final da década de 70.

A história do Cacique não foi marcada só por nomes famosos do samba. É relato de uma luta que enfrentou muitas ordens de despejo: o Cacique sempre se sustentou com a venda de camisas e fantasias no carnaval, passou por vários endereços e só agora recebe uma ajuda da Prefeitura. “Parece muito, mas um milhão é pouco para levantar o Cacique. O investimento vai reformar a quadra e construir um centro cultural e um grande ginásio... muitas crianças como o Gabrielzinho do Irajá vão se formar aqui.”, desabafa Bira. O presidente também ressalta a iniciativa que Marco Antonio Cabral, filho do Governador, tem de realizar um sonho do avô: tombar o Cacique de Ramos como patrimônio histórico. “É um reconhecimento mais do que merecido”, se emociona Bira.

E quem gosta de um bom samba pode freqüentar as rodas do Cacique, todos os domingos a partir das 18h. 







Fotos: André Costa



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