Inspiração - POR MAUD EPASCOLATO

 Quando estava lá com meus 20 anos de idade, comecei uma história dentro de outra história. A literatura era um hobby e um sonho distante. Mas a falta de inspiração era a mesma que acometia os grandes escritores.

 Mesmo me obrigando a escrever, a ideia para o enredo de um conto não parecia próxima. Então comecei a escrever qualquer coisa, qualquer frase; eu precisava de algo que acendesse uma luz em minha mente e que permitisse uma sequência. Pensando assim parece até fácil, não é? E é!!
“Ele abriu a porta devagar...”

 Essa foi a frase inicial. E como seria a sequência dessa frase? Pode ser qualquer coisa. Ele pode encontrar apenas a escuridão de um aposento vazio atrás daquela porta, pode sentir o cheiro do café feito pela mãe, pode encontrar um corpo estirado sobre o assoalho da sala... As possibilidades são inúmeras e depende do foco que o autor quer dar a essa cena.

 O personagem pode ter chegado do trabalho cansado, pois teve um problema com o chefe. Pode ter voltado de uma longa viagem, com malas pesadas, e está louco para saborear a comida caseira da esposa. Ele também pode ter sido assaltado no meio do caminho. Por que não? Continuar a frase, citando o que ele encontra atrás da porta e as lembranças dele até ali já dá alguns bons parágrafos ao autor. Não custa tentar. A imaginação pode levá-lo a lugares longínquos e inimagináveis.

 Muitos escritores em início de carreira (e eu me incluo nessa categoria) esperam que a inspiração advenha não sei de onde, enviada por um vento que lhe acometa o rosto e acenda a luzinha que estava apagada. Ou então que Deus lhe mande mensagens codificadas que possam se transformar em belas frases, cheias de significados e que se manifestem de forma coesa na tela do computador (ou nas páginas pautadas de um caderno).

 A inspiração não é a chuva que bate na sua janela ou um cometa que rasga o céu de madrugada. Não é uma criança travessa que lhe cai no colo e lhe diz o que deve fazer numa momento de resignação. Não é uma professora exigente que o coloca de castigo sempre que você se esquece de fazer a lição de casa.

 A inspiração seria o sopro divino, um ato quase sobrenatural enviado por anjos sentinelas sempre alertas para nos salvar num momento de aflição ou insegurança? Seria isso verdade ou estou me utilizando de um jogo de palavras para explicar o inexplicável?

 Segundo o dicionário, a inspiração é o estímulo ao pensar ou à capacidade de criação de artistas, escritores; o resultado de uma atividade que teve o estímulo da inspiração. Nada melhor do que você mesmo se dar esse estímulo para continuar escrevendo, sempre.


 Na verdade, a inspiração não passa de um ato humano que faz o escritor capaz de sentar na frente de um computador e simplesmente começar a escrever. É não se acomodar com “não ter inspiração”. É se curar da preguicite crônica e colocar a cabeça para funcionar. É ler uma vez apenas as dicas de outros escritores para alcançar a inspiração e começar a buscá-la de todas as formas possíveis.

A dica é uma só: ESCREVA!

 A preguiça, muitas vezes, nos impede de ver o óbvio. Quando pensamos em arrumar uma gaveta, acabamos arrumando o armário inteiro, pois estamos com a mão na massa. Que tal tentar fazer isso com o ato de escrever também? É muito simples. Comece apenas com uma frase. Quando se der conta verá que conseguiu escrever um capítulo inteiro num momento “sem inspiração”.

E então? Vamos tentar? Eu me comprometo a fazer isso sempre para lhe servir de inspiração e estímulo. Ah, você não precisa de inspiração e estímulo para escrever? Que bom! Então saia da internet e vá escrever.

Antes que perguntem, esse texto foi escrito num momento de total falta de inspiração.




Maud Epascolato é escritora de terror e suspense, leitora e revisora de textos, autora da antologia de contos “Medo do Escuro e outras histórias” (a ser lançado na bienal do RJ/2013), dos contos “Tempestade de Dezembro” e “Encontro com a Morte” e do romance “Morango Silvestre”. Faz parte dos Autores Nacionais (AN), da Associação Nacional dos Escritores Brasileiros (ANEB) e do Clube dos Novos Autores (CNA).

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