História de Pescador, Digo, de Coveiro

- Papai, morto chora?




O pai atônito nada respondeu, fixou o olhar na confusão e a ali ficou parado até receber a ordem do chefe para chamar a polícia.

Era tarde de um domingo de julho de 1979, o tempo nublado estava tão escuro quanto às roupas da família no velório. O nome do falecido? João Severino, filho do coveiro de nome homônimo, no cemitério do Catumbi do Rio de Janeiro, não lembra. Diferente do cheiro de rosas que tomava o lugar. Tão vivo em sua memória quanto à certeza de que seu pai nunca havia ouvido falar naquele paradoxo da fisiologia humana, aliás, que ninguém que conhecesse ouvira falar. Nunca. Um cheiro que não existia no sertão onde nasceu. Que não existia no humilde casebre onde vivia com a família na favela próxima ao local de trabalho do seu João pai. Naquela tarde era dia de trabalho escolar. João tinha 13 anos e foi incumbido a descrever a rotina de seu pai no trabalho profissional. Logo naquele dia de confusão. 

A pequena capela estava toda enfeitada. João não entendia o porquê de tantas flores, e flores amarradas num negócio redondo que ele nunca tinha visto. Também não compreendia os tantos véus amassados no caixão e até bexigas de festa de criança presas às paredes. O falecido era pagodeiro e devoto de São Jorge. “Ô santozinho arrêtado”, comenta o coveiro, João pai.  Os amigos estavam ou vestidos de branco ou de vermelho. A família, já citada, de escuro. E a amante... A amante estava com um vestido dourado e com dois cachorros dessas raças de “madama” pintados de rosa no colo. “A danada queria mesmo se destacar, ‘mostra’ que estava ali para pedir os direitos dela”, ri João coveiro. 

O morto pagodeiro era dado com um santo pela família que até então não sabia da existência da amante com quem tinha uma vida paralela, três filhos, dois cachorros e quatro periquitos. Como o coveiro sabia de tantos detalhes, nem João filho soube responder. Ele disse que foi o que ouviu falar no meio da gritaria que tomou o velório. “Ai foi assim...” todos estavam orando, foi logo após a reza do padre que mais parecia um ator mexicano dessas novelas que passam no canal 11. Era moreno, alto e tinha um bigode esquisito. Claro que João filho só se deu conta disso anos depois quando seu João pai comprou a primeira televisão em preto e branco da família. O padre estava no meio do Pai Nosso quando a mulher dourada entrou com os caninos que não paravam de latir. Era bonita, alta, um rosto esticado que escondia a idade. “Oh, não sei não, pela cara eu dava uns 30, pelo resto... Ah pelo resto... O resto era de 20 de lamber os ‘bêiço’, e olha que João filho só tinha 13, hein.” Loira de cabelos enrolados até a cintura, pernas grossas despidas no vestido curto e, dourado, e com um pandeiro... “Que nossa senhora” – João pai -, que explicava a pulada de cerca. “Toda amante é carnuda e loura, né?! Ainda cometo um pecado desse!” – reafirma o coveiro. A esposa era de um tipo “certinha”. Estava com um miúdo no colo que era esculpido o pai. Na cara que tinha uns 40. Era loira também, mas não dessas que dão água na boca e sim dessas que enchem os olhos de lágrimas só de encostar, parecia uma santa a orar pelo marido ali esticado. Até que sua atenção foi tomada pelo rosa dos cães e em seguida pelo dourado dos paetês. Aquilo não era roupa de velório, nem de gente decente. E apesar das bolas e das roupas dos amigos em homenagem a devoção ao santo, aquilo não era uma festa. Era um momento de tristeza. E também de gargalhadas assim que os outros pagodeiros da banda avistaram a amante e relembraram a história que acompanharam do danado nos últimos dez anos.

A amante foi logo se aproximando do caixão. Parou ao lado da viúva oficial e segurou em seu ombro. Até então, pareciam amigas. Tirou os óculos de abelha - moda da época - e limpou discretamente o borrão da maquiagem estragado pelas lágrimas. “Eu sinto muito à sua dor, mas preciso lhe contar...” e as lágrimas da santa oficial cessaram sem acreditar no que ouvia. A mais sincera confissão da traição sórdida da boca da amante de um homem que julgava digno, que lhe dera um herdeiro com muito custo e anos de tratamento, e não três vindos com muita facilidade. Toda a história veio à tona, de uma só vez, sem querer saber se feriria a imagem do homem, sem querer saber se abalaria a falsa paz da família, sem querer saber se importunaria os ouvidos dos presentes. E daí começou a briga. Palavrões não foram proferidos, “briga santa, né?!” – comenta o coveiro, mas a gritaria tomou conta e João filho não conseguiu encaixar todo o enredo, apenas o que descreve o texto. Bexigas estouraram e os aramados de flores foram jogados ao chão por impulso do desespero da viúva. “Que meu marido se debulhe em lágrimas se essa história for verdade!”.
Inacreditável. “O morto tá chorando”, gritou alguém. Todos pararam e encheram o entorno do caixão. Foi preciso força nos braços da viúva para afastar toda aquela gente e ver de perto o milagre.

- Papai, morto chora?!  - insistiu João.
 - Fica quieto menino!

 - Meu marido tá vivo!
 - Ei, o marido é meu! E isso é impossível, ele morreu nos meus braços.

Segundo a história do coveiro, que viu com os próprios olhos “que a terra há de ‘cumê’”, o morto chorou. Mas não um choro de muita água. Uma lágrima, apenas. Uma pequena gota que fez do velório um episódio - para muitos assustados - de terror, e - para os mais descrentes em fantasmas -, de comédia. Para João filho que não duvidava de nada depois que sentiu o mar pela primeira vez, o episódio seria um prato cheio para a professora de português que o enviou para aquela tarefa que, de inicialmente chata, tornou-se finalmente emocionante. 

Marianna Kiss



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