Flores Raras - Por Diego Lanza


FLORES RARAS - Brasil, 2013 - 118 minutos - Drama

Direção: Bruno Barreto
Roteiro: 
Matthew Chapman, 
Julie Sayres, Carolina Kotscho
Elenco: 
Glória Pires, 
Miranda Otto, Tracy Middendorf,
Marcello Airoldi, Treat Williams,
Lola Kirke












 Bruno Barreto acerta em cada detalhe deste sensível filme. Belíssimo, o filme incia e termina com Elizabeth Bishop lendo seu poema "uma arte" (em alguns lugares conhecido como a arte de perder, que fora um dos títulos que o filme já teve ), como se fosse parte de seu arco dramático terminar aquele poema, que no inicio do filme é taxado como confissões em frases esparsas, ou algo parecido. Ou podemos entender que em sua trajetória tortuosa e sofrida, Bishop conseguiu reunir os elementos que permitiriam-na elaborar suas dores na arte de perder.

 Com dialogos tocantes, o filme narra a chegada de Elizabeth Bishop (Miranda Otto) na casa de  Mary (Tracy Middendorf) e Lota (Glória Pires). Rude e fria, Elizabeth estranha o novo país e parece constantemente desconfortável. Logo sua frieza se revela sensibilidade extrema, e a escritora se mostra absurdamente frágil e insegura com vergonha do proprio trabalho. Aos poucos, se permite envolver com a Poderosa e bem resolvida Lota, e as duas personagens, tão diferentes entre si - lota por exemplo é um poço de orgulho de suas próprias criações - , transformam uma paixão de verão num amor para vida toda. 

 A relação de Bishop com Lota se desenvolve em meio a um Brasil às portas do Golpe Militar - e o olhar estrangeiro de Bishop atenta sabiamente para o fato e para a forma como os brasileiros vivenciam a situação. A relação da personagem com sua sensação de inadequação e dua relação com o nosso pais e explorado na medida certa para deixar o filme tomado pela relação das duas mulheres sem nunca pender apenas para um filme de romance ou uma cinebiografia. Antes de tudo, é um sensível ensaio sobre relações e construções de identidade. 

 Se Bishop começa o filme como uma mulher absurdamente frágil, ao longo do filme e da dinâmica com Lota, sua fragilidade se torna sua maior força, e a inversão das perosnalidades é um dos trunfos do filme. Toda a força de Lota passa a minguar. É uma ilustração de como aos poucos adquirimos os traços do outro - aqueles que admiramos, ou aqueles que podemos absorver. Já que, para nos desfazermos do outros, é preciso que guardemos uma característica deles em nosso ego, só assim abrimos mão. 

 Miranda Otto está incrível, nos apresentando através de gestos contidos e olhares pudicos toda a complexidade da poetisa. E Glória Pires, apesar do inglês estranho, encarna Lota de Macedo Soares com precisão. É uma ótima interpretação, que ofusca sua pronuncia esquisita com facilidade. O elenco de apoio também entrega boas atuações, que somadas à trilha sonora emocionante, fazem desse filme uma pequena obra, que me tocou profundamente. 80% falado em inglês, o que não permitiria que o filme concorresse ao oscar, por exemplo, é um excelente filme nacional, poético e doloroso. Mas uma experiencia deliciosa para almas sensíveis. 


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