Dizem que sou - Por Marianna Kiss

 Como a boa escritora que Dizem que sou, quero dividir com vocês o meu mundinho... Que, com muita licença poética, é extremamente interessante. Quando eu preciso de informação eu leio... Quando quero fantasia, eu crio. E entre realidade e ficção está crescendo no mundo literário o número de escritores – talentosíssimos – que abordam o cotidiano, anseios e sonhos do universo LGBT. E, aproveitando que esse mês teve o dia do escritor (beijo pra nós do Cabana), eu fui conferir essa literatura com os que estão bombando atualmente.



Começo com André Sena. 

 André, 39 anos, nasceu em Macaé, mas é um legítimo carioca, já que veio para o Rio de Janeiro com apenas três dias de nascido. Desde criança sonha em ser escritor, embora tenha iniciado sua carreira literária recentemente. “Acho que precisei lutar muito para sobreviver, sou um ‘self making man’*, não tive privilégios e meus pais não me deixaram bem material algum. Financiaram o quanto puderam minha educação intelectual, me legando um verdadeiro tesouro”, ele dá sua tacada inicial. 

 Além de escritor, é historiador na área de Relações Internacionais e Doutor em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Ele já escrevia livros, porém na área acadêmica. De caráter pessoal e livre, o Dizem que sou, é o seu primeiro título, e foi lançado na última sexta-feira, dia 16 de Agosto, na Livraria Cultura. O livro é feito de narrativas, poesias e relatos sobre a homofobia carioca. E ainda é acompanhado por ilustrações de Jefferson Nascimento. A iniciativa de escrever sobre o tema veio naturalmente. André se baseou em experiências pessoais e, como cidadão, ele se sentiu com a responsabilidade de contribuir para o debate sobre a homofobia. 

Não pude deixar de perguntar sobre seus embates pessoais. E o escritor só conseguiu contar aos pais sobre sua sexualidade aos 27 anos, depois de alcançar independência financeira. Ele se mostra arrependido e faz um importante alerta: 

“Recomendo a todos: saiam do armário o mais rápido possível! Enfrentem o mundo e vençam ainda jovens, a opressão homofóbica na família e na sociedade. Não sigam o meu exemplo. Não esse. Tenho outras qualidades. Mas, me escondi e hoje me arrependo muito disso.”

Falando em exemplo, crises de identidade são comuns a todos, e de fato revelar a sexualidade aos pais é um passo muito importante na vida de uma pessoa. Até os heterossexuais sofrem com isso. Por exemplo, quando eu tinha 20 anos minha mãe descobriu que eu perdi a virgindade, foi um Deus nos acuda. Em pleno século 21 ela sonhava que eu casasse casta. Risos. 

Quem vive da arte atrela a ela um importante estímulo no sentimento chamado coragem. Ainda mais quando duas áreas se casam, como é o caso da estrela desse post. O escritor é casado há quatro anos com o bailarino Fábio Sanfer e afirma “é uma honra e ao mesmo tempo um privilégio poder ter um diálogo com a estética, me desprendendo sempre que possível da minha racionalidade como historiador”. 
Tirando o trivial da entrevista, como sou muito curiosa, puxei uma pergunta para o lado literário e André me revelou o que lhe inspirou. Sua resposta foi divina:
“Minha orientação sexual é certamente e freudianamente o elemento mais estruturante da minha vida. É fundamental na maneira como vejo e interpreto o mundo. E acho isso incrível, rico e desafiador, porque aprendi a sentir orgulho do que sou. Orgulho existencial mesmo, não orgulho superficial, estampado em panfleto ou banner. Orgulho que me fortaleceu em sala de aula e acabou promovendo o maior de todos os elogios profissionais. Meu antigo coordenador acadêmico, Ronald Paschoal falava de mim em uma reunião de professores e me descreveu da seguinte maneira ‘o André é o profissional mais independente que nós temos’. Jamais vou esquecer isto, é a constatação de que cheguei a algum lugar; um lugar no mundo que sempre busquei e continuarei buscando: o da liberdade de ser.”

 André não é sucesso apenas na academia ou com os seus alunos. Antes mesmo de publicar o Dizem que sou, já é, também, muito admirado pelo público heterossexual. Ele afirma inclusive que se tivéssemos alguma possibilidade de quantificar isso chegaríamos a um paradoxo. E lamenta a resistência do público LGBT, “a homossexualidade é algo complexo e difícil. Nesse sentido muitas vezes eu reconheço certa resistência da própria comunidade em prestigiar eventos homoculturais. Isso provavelmente se deve ao pavor que se tem de todos os estigmas e estereótipos em torno da homossexualidade que levam a drásticas e variadas manifestações de homofobia, como a homofobia clássica, a homofobia religiosa, a homofobia “cordial”, a homofobia familiar e a mais terrível de todas: a homofobia internalizada. O público hétero está muito mais inclinado a ler meus livros, embora desejasse muito que o público homossexual, ‘o qual tenho orgulho de pertencer’, fosse mais sensível às nossas causas, especialmente no campo das expressões culturais”. Fica a dica, pessoal!

 O escritor está construindo sua carreira com versatilidade. Ele não faz apenas literatura homocultural, “escrevo sobre tudo”, e revela ainda que tem muita vontade de publicar algo em torno do diálogo inter-religioso, pois, é Budista. O Pastor Márcio Retamero que fez o prefácio do seu livro está trabalhando com ele na confecção de uma obra nesse sentido: Budismo e Cristianismo: um diálogo. “Tenho também o desejo de escrever um livro de poesias sobre uma das minhas mais recentes paixões. Meu companheiro é sergipano e meu amor por ele me trouxe o amor por Aracaju. Gostaria muito de lançar o Dizem que sou por lá”, acrescenta. 

Antes de terminar a entrevista ele ressalta que seu livro está repleto de emoções e fala especialmente de uma crônica sobre um atendente negro numa lanchonete no Centro do Rio, que sofreu preconceitos revelando a fragilidade de duas minorias diferentes: a sexual e a racial. Mas eu não vou soltar o título e nem dar mais detalhes, vocês terão que experimentar o livro. André passa seu último recado:

“Escrever é em grande medida revelar-se. Tenho enorme prazer em fazer isso e acho que alguém que está pensando em iniciar a carreira de escritor deve levar em consideração esse processo. Revelar-se é algo inerente ao exercício delicioso da escrita, com todos os seus riscos e deleites”.

 E para deixar todos com água na boca e terminar a matéria, segue uma palhinha do Dizem que sou:
“Vivemos em tempos de profundos anseios por mudanças no mundo, e isso requer de nós sensibilidade e reflexão. 

 Ao lado da homofobia histórica há um fenômeno cada vez mais visível em nossa sociedade: o da homofobia religiosa, ambientada no integrismo e no fundamentalismo. Outro fator visível é o da intolerância ao outro - a alteridade aparece no cotidiano, ora surpreendente, ora aberrante, mas ambos ‘desnaturalizados’, ou seja, impedidos de sua expressão na ordem do natural, do banal e do anônimo. A cidadania LGBT que vem construindo aos poucos uma agenda cada vez mais tangível enfrenta obstáculos aparentemente instransponíveis. Este livro de crônicas busca fotografar alguns acontecimentos que evidenciam nossa cultura sobre a homofobia, nosso cotidiano de intolerâncias e nossa resistência de cada dia. Todos nós, de uma forma ou outra nos reconheceremos nas páginas do Dizem que sou, o que não é nem surpreendente, nem pretensioso.”

* O termo correto é self made man, o self making man é uma brincadeira que o André faz “por ainda estar me fazendo, ao invés de self made man (como se já tivesse me feito)”. 

Marianna Kiss


Um comentário:

  1. Muito interresante, imagino que isso se deve ao fato das pessoas estarem mais abertas.

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