Coluna da Kiss - Regra do Contrário - Por Marianna Kiss


Você conhece a regra do contrário? Não!

Tudo é ao contrário do que parece inclusive a própria regra, que ao contrário não existe. 

 O mais cafajeste é o mais confiável dos homens. A mais safada é a mais santa. A mais santa é a mais puta. A mais difícil é o contrário e ao contrário, ela é a mais pilantra e a mais hipócrita. E a mais fácil é aquela que só quer se divertir, ao contrário do que pensam, é exceção à própria contrariedade já que pouco se importa se os outros pensam o contrário!

O mais durão é o mais coração mole. O mais mole... Bem... É o cabeça dura! Mas esse contrário você matou, não é?!

Ao contrário do que pensam, é a ovelha quem atrai o lobo para o perigo. O mais auto suficiente é o mais carente. E os palhaços choram, ao contrário do que se vê no circo. Eu, palhaça?! Não... Ao contrário... Auto suficiente... Na verdade carente. Ou será que é ao contrário?!

Os terapeutas são os que menos conhecem o próprio mundo por muito trabalharem para o mundo alheio. Os sexólogos e barmans de “puteiros” são os que menos fazem sexo. 

Lobos podem comer coelhos na mata, longe dos caçadores contratados por pastores de ovelhas. Viu o porquê do contrário?! 

Não se iluda com o mundo porque este é camuflado com pudores sociais. É a defesa, o escudo de papel. O mundo de verdade é o que você sente e não o que vê. E o nirvana?! Este é como o ápice do prazer sexual. Ou orgasmo... E isso poucos sentem em experiências não sexuais. Ao contrário, muitos pensam que só existe no sexo. Ao contrário desses muitos, são os poucos, esses sim são felizes. São os que vivem e fazem parte da regra do contrário, sem mesmo saberem que fazem parte disso, ao contrário da inexistência da própria regra. E isso pouco importa para esses, pois, eles vivem o mundo sensorial com cheiro, cores, sabores, tato, sensações movidas à imaginação ao contrário da realidade contrária dos pensamentos. Esses são repletos de julgamentos pré, durante e pós, e por conclusões aparentemente racionais. Mas é exatamente o contrário. E eu provo!

As ovelhas atraem os lobos para o perigo e não o contrário. Do contrário o palhaço não choraria, nem lamentaria sua vida, ao contrário, ele simplesmente se caberia da própria alegria. As ovelhas são as vilãs das crônicas e os palhaços talvez! Os contos de fadas originais são de terror e não de amor, ao contrário! E não havia compaixão no coração dos Grimm? Adivinhem!

Os aparentemente mais superficiais e que passam mais anos sozinhos são os que mais amam e amam mais intensamente. E o superficial é na verdade o contrário e o entendível. 

O compreensível é a hipocrisia, é a verdade que todos fingem acreditar. Mas ao contrário, quase ninguém é capaz de se colocar no coração do outro, o mundo é dominado pelo “Eu”. “Nós”? Talvez Ghandi, Jesus Cristo com certeza e mais alguns poucos e bons seres humanos.  

E quem for dono das certezas da vida não me conte, pois do contrário, eu não vou acreditar. E quem diz ter certeza, ao contrário, não sabe nada. Talvez a única verdade de fato universal, é que do “saber” pouco se sabe e nada se aprende. O “saber” não é o conhecimento e sim a interpretação e ai cada coração tem a sua. E quem vai provar o contrário?!

Assim como a beleza. É tudo ao contrário. Não é o que está do lado de dentro, menos ainda do lado de fora. Ao contrário do um, são os dois. Somente um cego evitaria o Corcunda de Notre Dame num primeiro momento, antes do contrário da visão. Assim como um coração que não enxerga a si próprio jamais encararia o mesmo corcunda em momento algum de sua existência. 

E o contrário do nunca?! Sempre! Sempre o que?! Sei lá! O contrário, talvez?! Não sei o segundo seguinte. 

Ao contrário, eu nada sei sobre tudo o que penso saber. Ninguém saberá o suficiente, nunca e ao contrário sempre. Sempre na busca e o contrário disso é o achado.

E o contrariado onde fica?! Divirta-me?! Para onde vai?! Quem lhe convém?! E o que importa?! Quem se habilita?!

O contrariado me faz rir até cair. Fica com cara de perdido, mas ao contrário, ele é o mais convicto, pois, apesar de lhe dizerem o contrário ele não se deixa persuadir. É o contrário do fraco e julgado sem personalidade. É o forte com os músculos virados ao contrário. 

Às vezes me faço de rogada e assim contrariada, sorrio politicamente ao contrário. O melhor a me livrar da ignorância alheia é o disfarce do contrário. Faço todos pesarem que sim, mas ao contrário, meu coração tem a incerteza que não, pois a certeza, eu já mencionei é o contrário de sua própria existência. 

Guerras?! Ao contrário das de sangue, as de travesseiros, e de preferência bombardeadas a risadas, o contrário seria muito sem graça. Jogo com gentileza quando alguém me irrita - que contrariando minha paciência sempre conseguem - assim ajo ao contrário. Prefiro a máscara de cachorrinho com o rabo entre as pernas que é o contrário do cão raivoso e insociável. 

Palhaços choram e eu ao contrário, prefiro o riso, pois, do contrário não teria vindo a esse mundo a passeio. E há quem me julgue do contrário. Eu sou o lobo e não resisto ao perigo das ovelhas, ao contrário: não nasci para a facilidade de comer coelhos. Quanto mais difícil o homem para mim melhor. E ao contrário dos que filosofam sobre dificuldade, eles são os mais fáceis. 

Portanto, jamais confie no que vê, você pode encontrar o engano e se cegar a ele ou, ao contrário! E por mais que eu tente fazer jus ao “é o que tem para hoje”, ao contrário, não consigo... Quero mesmo continuar a ser o que eu escolhi para a vida. Não resisto em ser a escritora inspirada em homens e dos contrários que me cercam. E ao contrário do que imaginam não prefiro o sexo ao amor, muito menos o contrário. 

Conto publicado no livro Catarse – A Apoteose dos Contos da Editora Deuses

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