Roteirizando - A Morte do Demônio e A Caça - Por Diego Lanza

A Morte do Demônio (Evil Dead)
EUA , 2013 - 91 min.

Direção:
Fede Alvarez

Roteiro:
Fede Alvarez, Rodo Sayagues, Diablo Cody

Elenco:
Jane Levy
 Lou Taylor Pucci
Shiloh Fernande
 Jessica Lucas
 Elizabeth Blackmore
Jim McLarty
Lorenzo Lamas
Rupert Degas
Phoenix Connolly


A morte do demônio é vendido como um Remake. Contudo, apresenta referências sutis aos filmes anteriores, sugerindo (principalmente no terceiro ato) que é uma espécie de sequência. Talvez uma mistura de ambos – uma nova história usando a mesma premissa e o mesmo universo. E nesse quesito, foi uma ideia de mestre. Pois apresenta a série “Evil dead” aos novos fãs de terror, inclusive atualizando o teor do filme (que deixa totalmente de lado o humor – que esteve presente no maravilhoso “Arrasta-me para o inferno” de Sam Raimi, aqui produtor do longa, mas que foi o diretor do primeiro Evil Dead e também tido como criador do gênero) sem contudo desagradar (totalmente ou unanimemente) aos antigos fãs.
                A historia nos apresenta cinco amigos (Jane Levy, Lou Taylor Pucci, Shiloh Fernandez, Jessica Lucas e Elizabeth Blackmore) que resolvem se hospedar numa cabana isolada e abandonada em uma floresta soturna (RISOS) para o tratamento de desintoxicação de Mia, a mais jovem do grupo Tal e qual o longa original, eles descobrem o terrível "Livro dos Mortos", que liberta um espírito demoníaco. O demônio então possui um por um os nosso burros amiguinhos e causando mortes de dar inveja à jogos Mortais.

                    A Formula é batida? Pode ser... Mas o filme é bem competente. Em sua primeira metade é realmente soturno e assustador. E como já dito, o filme abandona totalmente o humor do antecessor e aposta na violência gráfica e no gore pesado. As mortes são angustiantes, e nenhuma delas traz nenhum alívio cômico. Aliás, esqueçam os alívios cômicos. As risadas que possam surgir são certamente involuntárias.
                A película não chega a cumprir o que o cartaz promete, e acredito que isso se dê a partir de sua metade. É quando os personagens emburrecem por completo. Se no inicio a sacada genial de confundir os sintomas de abstinência de Mia se contrapõe aos efeitos da possessão demoníaca, ao longo da projeção é inaceitável que este ainda seja um elemento que cause confusão, por parte dos personagens, no entendimento da situação que vivenciam. Principalmente após a segunda morte.
                As leis e regras que regem a possessão, e as possibilidades de vitória sobre o demônio são simples e claras a maioria das vezes, com o didatismo de praxe. Contudo, no final, as coisas não ficam tão 100% claras assim. Uma pequena confusãozinha, que não chega a estragar o filme, mas que causa sim um estranhamento. Até porque o filme sugere que seguirá por um caminho mais fácil (como o explorado pelo final de Arrasta-me para o inferno), e segue por outro. Mas dá um pequeno retorno à ideia que parecia seguir antes e elabora mais alguma coisa a partir daí.

                É competente, tem bons sustos e muitos momentos angustiantes. Sabendo aproveitar bem a onda de interesse que filmes como “o Albergue” e “Jogos Mortais” trouxeram, o filme do diretor Fede Alvarez está bem acima da média de filmes de terror atuais, mas não chega a ser totalmente brilhante ou memorável. Mas é um grande acerto, certamente, quando pensamos nas atuais versões de Freddy Krueger e Jason Voorhees, por exemplo. 









A Caça (Jagten )
Dinamarca , 2012 - 115 min.

Direção:
Thomas Vinterberg

Roteiro:
Thomas Vinterberg

Elenco:
Mads Mikkelsen
 Thomas Bo Larsen
 Annika Wedderkopp
Lasse Fogelstrøm
Susse Wold
Anne Louise Hassing
Lars Ranthe
Alexandra Rapaport
Ole Dupont

Um professor de jardim da infância (Mads Mikkelsen) é adorado pelas crianças da escola primária na qual trabalha, e também população da pequena cidade na qual vive. Ele Participa ativamente dos tradicionais grupos de caça (Culturalmente importantes naquele local) no qual tem amigos leais. Mas quando a pequena menina de 8 anos, Klara (Annika Wedderkopp) – também filha de seu melhor amigo – confunde seus sentimentos e tenta beijar o professor, o homem tenta fazer a criança entender que aquilo não é correto com ele, naquele espaço. Mas Klara, confusa, e por isso enfurecida, acaba repetindo à diretora da escolinha uma frase que ouviu de um dos irmãos - algo que coloca a cidade inteira contra o professor, que passa então a ser acusado de ter abusado sexualmente da menininha – e não só dela.
                Por esse enredo, já sentimos algo muito angustiante. Porém, o desenrolar do filme é um verdadeiro pesadelo Kafkaniano. Os eventos se desenrolam num descontrole absurdo, e o forte sentimento de injustiça é gritante. E talvez seja o que torne a experiência e assistir o filme mais difícil; eu diria que poucas vezes um filme me revirou tanto o espírito – a não ser talvez Dogville, do Lars Von Trier, que não por acaso foi parceiro do Diretor deste filme (Thomas Vinterberg) no movimento Dogma 95 [que preconizava um cinema mais simples, sem grandes interferências tecnológicas, mais realista e menos comercial. Um movimento contra a industrialização da sétima arte].
                Aqui, Vinterberg retoma o tema que foi seu filme inaugural e também um dos primeiros nas regras do manifesto do Dogma: Festa de Família. A pedofilia, um tema bastante indigesto é revisitado, mas a injustiça aqui é ilustrada ao reverso. A vitima é o algoz, uma vez que o Lucas de Mads Mikkelsen não é culpado de fato. O ator, aliás, nos entrega uma interpretação intensa, contida, com as explosões necessárias nos momentos específicos, e oferece um homem que vai sendo quebrado e abandonado aos poucos. E injustamente.
                O diretor – que tem total controle da direção, da câmera, e conta com uma fotografia bela com tons marrons, de outono – nos apresenta situações desconfortáveis, por vezes odiosas, na forma pela qual o protagonista é tratado pelos habitantes da cidade. E justamente por estamos ao lado dele, por saber que não é o culpado, a angustia e o ódio da injustiça presenciada nos leva ao descontrole emocional. É difícil ficar isento de sentimentos.
Contudo, pensemos – muitas das ações ocorrem por conta das opiniões cheias de certezas e são de certo modo compreensíveis: De forma rápida (dada angústia que a possibilidade de crianças terem sido abusadas cria, e a urgência com que as pessoas passam a tentar resolver a questão) a cidade se convence de que Lucas é um monstro. As opiniões estão embasadas nas conclusões de especialistas em abuso e nos sintomas que crianças normalmente expõe após um horror desses. Pois bem, neste caso, o imaginário infantil é partilhado pelos pequenos estudantes e todos passam a verbalizar a mesma história irreal. As crianças não estão falando a verdade, mas todos os adultos passam a interpretar o real a partir da leitura de um abuso. A pedofilia vira o mapa para o entendimento daquele território, e o caçador vira a caçada – literalmente, como o diretor ilustra com o costume local de caçar.
Com isso, Thomas também nos propõe reflexões sobre padronificação de comportamentos – leiam CIDs e DSMs, que descrevem sintomas que quando reunidos diagnosticam uma síndrome, e em geral são pequenas bíblias para quem trabalha com diagnóstico.  Podemos mesmo confiar 100% nessas descrições, nesses diagnósticos? Todo o discurso da pequena Klara passou a ser interpretado a partir da noção do abuso. E mesmo quando a menina tenta falar a verdade, isso passa a ser entendido como fruto da confusão causada pelo abuso. É o mesmo caminho que fazemos com a loucura – uma vez diagnosticada, tudo que o louco fala passa a ser colocado em descrédito.
Quando se aproxima do fim, as emoções se acalmam, e há uma certa paz emocional que se instaura. Mas, brilhantemente, o longa termina como a fina cobertura de um lago congelado, como podemos notar pela cena final emblemática.
O filme é indigesto, emocionalmente indigesto, mas uma obra poderosa. Um cinema bastante amadurecido de Vinterberg. E um dos melhores do ano. 





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